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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ALMEIDA PRADO By Eunice Tomé

Mais um maravilhoso texto, da nossa querida Eunice Tomé, escrito especialmente para o Expresso Elas: Almeida Prado, santista, um dos maiores compositores e pianistas brasileiros. Bem vindos a uma boa leitura...
Kátia Nascimento.

ALMEIDA PRADO – UMA OBRA DE MÚLTIPLAS RESSONÂNCIAS
                O difícil é saber como começar a escrever sobre algo que nos trouxe arrebatamento e encantamento. Foi na sexta-feira última, que antecedeu o Carnaval, um recital de piano, violino e violão, não com marchinhas populares, mas erudito. No casarão de frente para a praia, a Pinacoteca, local que já foi palco de tantas expressões artísticas.
                Isso só seria pouco. Tratava-se do dia do aniversário de um dos maiores compositores e pianistas brasileiros, nascido em Santos, e que completaria 70 anos, se ainda estivesse entre nós. Músicos, incluindo sua mulher e filha, ali estavam para homenageá-lo e dividir com o público algumas peças, entre Prelúdios, Sonatas, Noturnos, de uma vasta obra de pouco mais de 600 composições.
                Era uma comemoração póstuma a José Antonio Rezende de Almeida Prado e fazendo parte de uma apresentação denominada Série Musical Ritornello, com promessas de que outras virão.
                Enquanto iam se sucedendo as execuções das obras musicais, uma foto em um banner mostrava a imagem do compositor Almeida Prado, dando a nítida impressão de que sua presença era marcante e quase física. Voltando no tempo, fui lembrando que cheguei a conhecê-lo por volta de 1974, quando foi Diretor do Conservatório Municipal de Cubatão. Muito tempo depois, através de uma ligação telefônica, talvez perto do ano de 2003, mantive contato, propondo uma entrevista para uma série de programas que a Santa Cecília TV vinha fazendo com nomes de artistas santistas. Infelizmente, não concretizada, devido a problemas de saúde.
                Mas nunca pensei que em 2013, cerca de três anos após a sua morte, teria o privilégio de conhecer de perto um pouquinho das suas tão ricas composições que, segundo ele mesmo, “são cheias de timbres, cores, ressonâncias. A forma vem submetida a esses estímulos de timbres”. Essa característica da sua música ficou muito nítida no piano solo de Fantasia Litorânea, onde  o movimento do mar, os ruídos da chuva, da cigarra, da bola do jogo de tamboreu, são percebidos nos acordes, tendo a cidade de Santos como inspiração,
                Todas as obras apresentadas trazem imagens cheias de significados e  cruzando com outros elementos inspiradores na sua criação, numa demonstração de que as artes dialogam. Assim foi com Poesiludio nº 1, em cima da obra de Fernando Pessoa; Sonata nº 1, inspirada em Villa Lobos; Sonata nº 6, sobre um poema de um místico espanhol do sec. XVI, San Juan de La Cruz.
                A criação de Almeida Prado, porém, não é restrita a poemas e textos literários, pois ele se inspira em quadros, momentos, cidades, astros, sendo que Cartas Celestes nº 2 usa como fontes os planetas, transformando-os em notas musicais e em harmonias.
                Ao final, a mulher (Helenice Audi) ao piano e a filha (Constança de Almeida Prado) ao violino nos brindam com uma Sonata, composta sobre um poema oriental, que dizia, mais ou menos assim – o poeta disse à amendoeira: “Fala-me de Deus”. E a amendoeira floresceu. Essa música preencheu todos os espaços do velho casarão e trouxe aromas de flores e sentimentos de cores. Uma pura emoção.
Que outras linguagens musicais venham, acompanhadas dos músicos  Fábio Scarduelli, Antonio Eduardo e Nelson Lin, além de Helenice e Constança.          Santos precisava resgartar esse filho que enriqueceu o cenário musical contemporâneo e reconhecer o patrimônio cultural deixado para o Brasil e para o mundo.
   
Eunice Tomé – Jornalista e Escritora
Fevereiro/2013


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